O património cultural é um ativo valioso para um dos setores mais importantes da economia portuguesa: o turismo. Mas estará o atual modelo a pôr em causa a sua sustentabilidade?
Turismo, o anjo salvador da economia
O turismo em Portugal tem vindo a registar níveis inéditos de crescimento, sendo atualmente um setor imprescindível para a sustentabilidade económica do país. Para este desempenho, muito tem contribuído aquele que é um dos grandes “ativos” nacionais: o património cultural. Quem nos visita não se alimenta apenas da nossa apetecível gastronomia ou do clima benfazejo. A sede de arte e cultura, ainda que muitas vezes manifestada e saciada de forma caricatural, é, em última análise, um fenómeno real a que é preciso dar resposta. Dito de outra forma - e continuando na linguagem económica - é uma procura que exige uma oferta. Mas resistirá a nossa oferta a tão intensiva procura? Estará a sustentabilidade económica do país a pôr em causa a sustentabilidade do seu património cultural, que por sua vez alimenta os fluxos turísticos? E em que medida as atuais formas de usufruir do património, fortemente mediados pela tecnologia, contribuem para esse perigo?
Ver e fazer: a propensão turística para a interação física
O comportamento turístico não se modificou sobremaneira ao longo dos séculos e sempre fez uso da tecnologia disponível para tentar capturar a essência da experiência vivida. Prevalece a vontade de conhecer novas realidades, conhecer em primeira mão sítios internacionalmente celebrados e exorcisar as rotinas do quotidiano com estímulos e emoções desconhecidos. E, idealmente, levar para casa uma recordação dessa vivência recorrendo às formas de reprodução disponíveis ou a objetos comprados ou recolhidos. A famosa gravura de Thomas Rowlandson, aberta em 1811, ilustra bem esse paradigma. Com o título “Pastime in Portugal or A Visit to the Nunnerys”, mostra dois oficiais britânicos a comprar bolsas de seda às freiras de um convento. As bolsas, sem prejuízo de ficarem como uma recordação física da visita, seriam, talvez em primeira instância, um pretexto para uma experiência de contornos românticos: um vislumbre do amor proibido, uma troca de olhares e de gestos que deixava no ar possibilidades e interrogações, aliás prontamente reprovadas pelo olhar carrancudo da velha freira que, em segundo plano, supervisiona a transação comercial.
Esta busca da componente emocional não se diluiu. Pelo contrário, a "experiência", ou seja, o “fazer”, é mais do que nunca valorizada em detrimento da contemplação passiva. As atividades participativas ligadas ao património cultural – os percursos temáticos, os workshops, o contacto com as atividades rurais - são alvo de preferência, e a oferta tem crescido nesse sentido. Na transação económica que se concretiza com o ato turístico, o “ver” não é suficientemente aliciante e o turista quer sentir-se parte da realidade que lhe é dada a conhecer. Mas no que toca aos monumentos, sítios e museus, a vontade de interação física é frustrada pela natureza estática desses mesmos locais, limitando-se a oferta à circulação. O que se tem verificado é que a ausência de uma vocação interativa tende a ser compensada pela captura fotográfica feita com recurso ao telemóvel.
A tecnologia enquanto mediadora da experiência: uma ameaça à sustentabilidade do património
Assim, se a experiência turística pende cada vez mais para a interação e se a generalidade da tradicional oferta patrimonial não está vocacionada para esse pressuposto, a sustentabilidade desta última fica posta em causa. Seria útil considerar as novas coordenadas trazidas pelo uso da tecnologia nas avaliações de capacidade de carga cultural que servem de base ao planeamento e gestão dos espaços patrimoniais. Na impossibilidade de uma interação física com o património, a objetiva da câmara do telemóvel torna-se uma mediadora da experiência. Este comportamento está diretamente relacionado com o investimento económico que se pretende ver ressarcido com a experiência vivida: capturar imagens é, simplificando, obter a satisfação prometida pela vivência proposta. O turista refugia-se pois num tipo diferente de contrapartida, a do alavancamento social através da possibilidade da partilha mais ou menos imediata das experiências vividas. A fotografia tornou-se, enfim, o pináculo da viagem turística, a prova prestigiante da possibilidade de um estilo de vida e o recibo de um investimento. A vivência íntima e serena de um espaço ou de um objeto, outrora valorizada, dissipa-se perante a possibilidade do adiamento do usufruto em primeira mão e do amealhar de um dividendo social, um e outro muitas vezes ilusórios.
A exacerbação desta tendência, que uma afluência por vezes desmesurada acentua, traz como consequência o aumento da volatilidade no comportamento dos visitantes. A ânsia de fotografar, de conseguir registos mais criativos e audazes ou simplesmente de conseguir o “certificado visual” da experiência, representa um perigo para o património. Dois episódios da história recente ilustram bem essa realidade. Em 2016, um turista causou danos na estátua de D. Sebastião que decora a fachada da gare do Rossio quando posava para uma fotografia; e, no ano seguinte, uma imagem do arcanjo São Gabriel foi derrubada do seu plinto no Museu Nacional de Arte Antiga por um turista que passava. Ironicamente, duas figuras culturalmente ligadas ao providencialismo postas em cheque: “o desejado”, salvador de uma pátria deprimida, mutilado; um anjo - o anunciador da boa nova - caído; ambos “ceifados” pelo “anjo salvador” da economia: o turismo. Sintomas de uma época ou prenúncios de uma outra?
Turismo e património: um equilíbrio delicado
O desafio que se coloca presentemente é o de garantir a sustentabilidade do património sem prejudicar a sustentabilidade da economia. Mas ao mesmo tempo que se procura este equilíbrio há que repensar o modelo vigente. Um país economicamente dependente de um setor económico está inevitavelmente exposto a uma crise. O desgaste do património cultural é um sintoma que não deve ser ignorado. Os azulejos que se vendem avulso na Feira da Ladra vão um dia acabar, por inesgotável que a sua fonte pareça. Mas é provável que, antes disso, a conjuntura internacional “diga” de sua justiça. O anjo do turismo veio insuflar vida à economia, mas outro anjo, o que maneja a balança, vai entretanto avaliando os méritos e deméritos das políticas que têm dado preferência ao baixo custo e à massificação, com prejuízo do caráter das cidades, da qualidade da circulação e dos preços da habitação.
Nas fotografias fugazmente tiradas em sucessivos tropéis, começa a aparecer cada vez mais nítido o semblante rabugento da velha freira da gravura de Rowlandson, procurando preservar, contra a força irresistível das vontades voláteis, a virtude das suas noviças.
Imagem: Pastime in Portugal or A Visit to the Nunnerys, Thomas Rowlandosn, 1811, Boston Public Library
