Do fogão a gás portátil ao kit de emergência: o que deveríamos ter em casa se houvesse uma falha de energia hoje
Estar preparado para situações de falta de energia nunca foi tão importante como hoje. Neste artigo falamos de como nos podemos preparar para casos de colapso energético ou catástrofe.
A energia nos tempos que correm - um cenário de incerteza
Ainda estão frescos na memória coletiva os eventos que nos obrigaram a questionar a preparação do país e de cada cidadão para situações de falha de energia de duração incerta. O apagão de 2025 e o fenómeno climático extremo de fevereiro de 2026 são exemplos de situações imprevisíveis que puseram à prova a capacidade da Proteção Civil e a resiliência das populações, expondo uma série de fragilidades ao nível da prevenção em caso de emergência energética.
Mas apagões e fenómenos relacionados com as alterações climáticas não são as únicas ameaças neste período de transição energética que o mundo atravessa. As consequências da guerra já se fazem sentir no preço dos combustíveis e do gás, fontes de energia de que as sociedades ainda são grandemente dependentes. Estará o cidadão comum preparado para uma falta de gás prolongada? E no caso de ocorrer um sismo de grande magnitude, que além de interrupções no fornecimento de energia pode pôr em causa as condições básicas de sobrevivência? Teria a maioria da população um kit de emergência preparado se houvesse uma falha de energia hoje?
A nossa capacidade de influenciar a preparação do Estado para estes eventos é limitada. Mas a prevenção individual - e eventualmente a dos que nos são mais próximos - depende apenas de nós. Para assegurar essa prevenção, existem medidas estratégicas que podemos começar a tomar desde já e outras que podem ser implementadas consoante tenhamos possibilidade. Comecemos por estas últimas.
O primeiro passo para a segurança energética - traçar o seu perfil de consumidor
Quando se trata de prevenir situações de falha de energia, a principal estratégia é não estar dependente de uma única tipologia para todas as necessidades energéticas da sua casa. Por outras palavras, não ter exclusivamente equipamentos elétricos ou, no que toca ao aquecimento e confeção de comida, não depender exclusivamente do fornecimento de gás. Um termoacumulador, um fogão elétrico e um aquecedor a óleo são ótimos durante uma falta de gás, mas péssimos durante uma falta de eletricidade; neste caso, são os fogões, aquecedores e esquentadores a gás os mais vantajosos. Relativamente a hipotéticas falhas de gás canalizado, torna-se óbvia a vantagem da outra modalidade conhecida de consumo de gás: a botija. A possibilidade de ter botijas adicionais em reserva pode ser decisiva para assegurar o aquecimento e a confeção de alimentos numa situação de crise.
Portanto, o primeiro passo a dar para assegurar a resiliência energética durante um colapso das redes de distribuição é olhar para o seu atual perfil de consumidor, constatar quais são as suas atuais fontes de fornecimento de energia e tentar assegurar alternativas aos equipamentos que delas dependem.
Fogão a gás portátil e equipamentos solares
E no caso de a uma falha de eletricidade se somar uma falta de gás? É aqui que o fogão a gás portátil se revela muito útil, especialmente para quem não dispõe de um fogão a gás de botija. Com este equipamento, não só garante a possibilidade de confecionar alimentos, como assegura a capacidade de ferver água num contexto de escassez de água potável. Em situações de curta duração, a confeção de alimentos pode não ser essencial - e a posse deste equipamento não deve substituir uma provisão de alimentos não perecíveis, como veremos em seguida. Mas a imprevisibilidade do atual contexto internacional e a crise climática que atravessamos sugerem que períodos mais prolongados de escassez não são improváveis e, nestes casos, a possibilidade de preparar refeições nutritivas com regularidade pode revelar-se importante. Para além disto, o fogão a gás portátil tem na sua portabilidade uma vantagem adicional, pois mantém a sua utilidade no caso de ser necessário sair de casa devido a um evento extremo.
Mas há também alternativas ao gás e à eletricidade que devemos considerar e que podem ser decisivas para assegurar a nossa resiliência energética: os equipamentos que funcionam a energia solar. Existem já múltiplos aparelhos de carregamento solar que podem ser muito úteis em caso de falha de energia, desde rádios e lanternas a pequenos candeeiros. Contudo, o mais importante talvez seja o carregador solar portátil, pela possibilidade que oferece de manter os nossos telemóveis a funcionar e assim assegurar algum nível de comunicação, bem como outras funcionalidades que hoje não podemos dispensar. Poder manter o nosso telemóvel funcional, seja em casa ou no exterior, pode ser tão essencial à nossa sobrevivência como a alimentação. Olhemos agora para este último tópico.
Da reserva de alimentos à autossuficiência alimentar
A linha da frente: os alimentos não perecíveis
Já vimos como um fogão a gás portátil pode ser importante para assegurar uma alimentação minimamente saudável num contexto de falha prolongada de energia. Convém agora sublinhar a importância de manter em casa uma provisão de alimentos não perecíveis, prontos para consumo imediato sem necessidade de confeção. A importância destes alimentos é óbvia: não precisam de frigoríficos ou congeladores - equipamentos dependentes de eletricidade - para se conservarem e dispensam utensílios de cozinha para além de um abre-latas (e um garfo ou colher). Pense nesta reserva como a linha da frente contra qualquer situação em que o acesso a géneros alimentares nos supermercados ou lojas cessa repentinamente. Conservas de peixe, carne e leguminosas como feijão, milho ou grão, são escolhas essenciais pelo seu valor nutricional e respetiva carga proteica.
Mas alimentos secos, como bolachas de cereais, são também importantes pela versatilidade e valor calórico, a que se podem juntar frutos secos e desidratados. Para situações de desgaste acentuado em contexto externo, as barras energéticas podem também ser muito eficazes pela sua leveza, podendo incluir algumas no seu kit de emergência ou simplesmente tê-las num local de fácil acesso e colocá-las num bolso ao sair de casa, se suceder não ter tempo para grandes preparativos.
Fundamental (e talvez mais importante) é assegurar uma reserva de água potável. Garrafas de água engarrafada devem obrigatoriamente fazer parte desta reserva estratégica, bem como algumas garrafas de pequena dimensão que podem integrar o seu kit de emergência. Num ou noutro caso, ter disponível algum meio de purificação de água - fervimento, filtragem e/ou pastilhas de purificação - é também aconselhável.
Resumindo, alimentos com prazo de validade prolongado e que não necessitem de preparação são a primeira medida de segurança alimentar, devendo ser em quantidade suficiente para alimentar uma pessoa durante alguns dias (procure avaliar a quantidade em proporção ao seu agregado familiar). Uma boa prática para a manutenção desta reserva de alimentos é fazer uma rotação cíclica, ou seja, utilizar aqueles cujo prazo de validade se vai aproximando do fim e substituí-los por outros mais recentes.
A retaguarda: produzir os nossos próprios alimentos
Mesmo para quem não vive no campo, onde as condições para produzir alimentos são mais óbvias, existe a possibilidade de plantar em casa, com sucesso, diversos produtos hortícolas que podem constituir um valioso recurso alimentar. Com um mínimo de equipamento, cuidados e condições de luz, o plantio em vaso de culturas de grande valor nutricional como o espinafre, a beterraba ou citrinos, é relativamente acessível e pode proporcionar um complemento essencial de alimentos frescos à reserva de alimentos não perecíveis que deve ser mantida. Exploraremos esta vertente de autossuficiência alimentar com mais detalhe num próximo artigo. Entretanto, olhemos para o elemento mais decisivo e que deve desde já ser preparado para eventuais crises de falha de energia ou desastres naturais ou bélicos.
Estar preparado para uma emergência energética ou um cenário de catástrofe: o que pode fazer hoje
Relativamente a medidas que possa implementar hoje, a principal é a constituição de um kit de emergência, que deve conter os elementos essenciais à sobrevivência numa situação de crise: alimentos não perecíveis, água, conforto térmico, iluminação e medicamentos básicos. Em termos práticos, o equipamento a usar para conter estes elementos deve ser resistente e impermeável, mas também leve, para minimizar o desgaste físico causado pelo transporte. Uma mochila ou saco com alças para transporte às costas é o formato ideal. A utilidade dos items a incluir é autoexplicativa, pelo que nos limitaremos a enumerá-los, tome nota:
- Alimentos não perecíveis em quantidade suficiente para três dias
- Água suficiente para três dias
- Filtro para água e pastilhas purificadoras de água
- Medicamentos básicos - analgésicos, anti-inflamatórios, antidiarreicos, antisséticos -, bem como qualquer medicação específica para doenças crónicas
- Kit de primeiros socorros com material para tratamento de feridas
- Lanterna
- Rádio am/fm
- Manta térmica
- Canivete multifunções
- Dinheiro em numerário
- Fotocópia de documentos de identificação em bolsa impermeável
Uma vez constituído o seu kit, é conveniente arrumá-lo numa zona sem humidade e de fácil acesso, para que seja de alcance fácil em caso de emergência.
Conclusão - estabeleça prioridades e comece a agir
As medidas sugeridas neste artigo foram pensadas para o preparar para situações de incerteza. Como diz o adágio, “mais vale ter e não precisar do que precisar e não ter”. Comece pelo fundamental – o kit de emergência – e a partir daí, com mais calma, reveja o seu perfil de consumidor energético e procure assegurar alternativas aos seus atuais equipamentos domésticos de forma a garantir que não fica dependente de uma única tipologia energética em caso de falha de energia.
Mesmo que o seu atual perfil se divida entre a eletricidade e o gás canalizado, não descarte a possibilidade de ambas as fontes de energia poderem colapsar em simultâneo. Pela sua versatilidade, um fogão a gás portátil é dos equipamentos mais úteis nestas situações. Faça o exercício de imaginar como poderia conservar comida, cozinhar, aquecer-se ou carregar o seu telemóvel se os equipamentos que possui atualmente não pudessem funcionar e a partir daí equacione as alternativas que mais lhe convêm.
Poderá encontrar sugestões de equipamentos de autonomia energética e emergência na secção Soluções Sustentáveis do nosso blogue.
