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O que acontece quando começamos a dançar

Algo tão simples quanto dançar por alguns minutos em nossa casa pode marcar o início de uma relação mais saudável connosco mesmos. Descubra porquê neste artigo.











O início: há vida para além da rotina

Ao preparar-se para interpretar Nina, a personagem principal do filme Black Swan, a atriz Natalie Portman passou cerca de um ano a aprender ballet. Começou por treinar duas horas por dia durante os primeiros seis meses. Depois, aumentou o ritmo e passou a dedicar cerca de cinco horas diárias ao ballet, à natação e à preparação física. Nos dois meses antes das filmagens começarem, o treino chegou às oito horas por dia, complementado ainda com a aprendizagem das coreografias. Foi uma preparação muito exigente, que a própria atriz descreveu como intensa, mas também como muito divertida. 

Durante esse período, a atriz descobriu qualquer coisa que ultrapassava a exigência física do papel: a dança ensinara-lhe uma outra forma de compreender o movimento e fizera-a entender que o olhar, a cabeça, a postura e o gesto podem transmitir sentimentos, ideias e pensamentos. Há emoções de que as palavras apenas se conseguem aproximar, mas que através do corpo podem ser comunicadas de uma forma muito direta e certeira.

É uma descoberta que não pertence apenas a quem sobe a um palco, mas a qualquer pessoa que, começando a dançar, fica mais consciente das possibilidades do seu corpo.

O estilo de vida contemporâneo, especialmente nos centros urbanos, dita que passemos grande parte do dia sentados diante de um computador e à noite sentados num sofá. Levantamo-nos, caminhamos o percurso essencial para ir de A a B e voltamos a sentar-nos. As rotinas variam pouco e o nosso corpo, mesmo estando sempre presente, raramente ocupa o centro da nossa atenção.

Mas a música tem o poder de alterar por completo essa relação. Se subitamente começa a tocar uma canção de que gostamos, quase sem darmos por isso, o corpo começa a acompanhá-la. E se nos soltarmos mais um pouco, a nossa cintura encontra o ritmo, os pés marcam os tempos e os ombros vão atrás do balanço. A respiração ajusta-se e, por alguns minutos, aquilo que fazemos com o corpo deixa de ser mais uma obrigação do dia-a-dia e passa a ser uma experiência de liberdade e leveza.


O corpo que aprende

Aprender uma dança é uma forma excecional de exercitar a nossa atenção. É preciso memorizar uma sequência, perceber quando começa o movimento seguinte, coordenar diferentes partes do corpo, manter o equilíbrio e, se houver outra pessoa a dançar connosco, perceber os seus sinais. Há qualquer coisa de semelhante a uma conversa nessa troca, em que um corpo sugere e o outro responde.

Esta combinação de movimento, música e exigência mental tem despertado o interesse da ciência. Em 2023, um grupo de investigadores brasileiros publicou no Journal of Dance Medicine & Science um estudo sobre os efeitos da dança na saúde mental dos adultos. O estudo analisou dez ensaios clínicos aleatorizados, envolvendo 933 participantes entre os 18 e os 62 anos de idade que tinham praticado diferentes modalidades de dança. No seu conjunto, os participantes apresentaram menos sintomas de depressão, ansiedade e stress do que os grupos de comparação (embora os autores tenham assinalado algumas limitações metodológicas nos resultados disponíveis). 

Mas há uma diferença importante entre saber isto em teoria e sentir os resultados praticando dança.

Quem já tentou aprender uma coreografia conhece o momento em que os passos deixam de parecer uma sequência impossível. Primeiro é preciso pensar em cada movimento; depois, pouco a pouco, o corpo começa a antecipá-los, até que, de repente, já não estamos a pensar no passo seguinte: estamos a dançar. O nosso cérebro cumpriu o seu papel e agora o corpo pode desfrutar do prazer que dá o movimento coordenado com a música.


Quando a cabeça fica mais leve

Esta é provavelmente uma das experiências mais agradáveis que a dança proporciona.

Durante o dia, a nossa atenção raramente está concentrada numa única tarefa. Pensamos no que aconteceu, nas solicitações do nosso trabalho e em tudo o que falta cumprir nesse dia, nunca estando verdadeiramente presentes no momento. Quando dançamos, o ritmo está ali, o movimento seguinte está ali, a pessoa que dança connosco está ali. A atenção concentra-se apenas no que está a acontecer e, por alguns instantes, tudo o resto fica em segundo plano.

A investigação não permite dizer que a dança faça desaparecer a ansiedade ou o stress, nem que produza o mesmo efeito em todas as pessoas. Mas permite falar de uma associação direta entre a participação em atividades de dança e vários indicadores de bem-estar psicológico. O estudo que atrás mencionámos encontrou reduções nos sintomas de depressão, ansiedade e stress; uma meta-análise anterior, que reuniu 28 ensaios clínicos, encontrou igualmente efeitos positivos da dança e da dança-movimento-terapia em resultados como depressão, ansiedade e qualidade de vida.

Mas não precisamos de transformar cada sensação agradável numa descoberta médica. Há valor suficiente em sair de uma aula de dança com o corpo agradavelmente cansado e a cabeça mais leve, ou em chegar a casa depois de um dia exigente e descobrir que uma música nos pode devolver alguma energia e equilíbrio.


Descobrir o corpo a partir de dentro

Existe ainda uma mudança, mais subtil, que advém da prática da dança.

Vivemos em ambientes saturados de imagens do corpo humano. Seja na televisão, no telemóvel ou na publicidade que inunda as ruas, somos constantemente confrontados com corpos - muitas vezes idealizados - de outras pessoas e somos levados a compará-los com o nosso próprio corpo. É muito fácil passarmos a relacionar-nos com ele como se fosse uma coisa que é alvo de avaliação.

A dança pode ajudar a combater essa tendência.

Durante uma dança, interessa menos a aparência do movimento do que o próprio movimento. Sentir o peso do corpo, descobrir até onde podemos estender um braço, perceber que conseguimos acompanhar aquela música, ganhar equilíbrio ou experimentar uma velocidade diferente.

Um outro estudo, publicado em 2025 na revista Frontiers in Psychology, analisou diferentes formas de dança e a sua relação com a autoestima física e a ansiedade causada com a aparência corporal. O resultado mostrou que os participantes, com idades entre os 18 e os 76 anos, encontraram melhorias na autoestima e na autoconfiança, acompanhadas por uma redução da tendência de avaliar negativamente o próprio corpo e, por consequência, da ansiedade que daí resulta.

Poderá ser uma mudança pequena, mas que marca o início de uma nova forma de estar em que, em vez de olharmos para o nosso corpo com os olhos do mundo exterior, passamos a senti-lo a partir de dentro e a construir uma relação positiva com ele.

E há algo de particularmente interessante nessa mudança. O corpo não precisa de ser jovem, especialmente flexível ou tecnicamente competente para começarmos a dançar. A primeira tentativa pode ser desajeitada, podemos perder o ritmo ou até sentirmo-nos ridículos. Com o tempo, porém, a atenção desloca-se daquilo que parecemos fazer para aquilo que estamos a conseguir fazer, e para o prazer que daí retiramos.

Já a dança profissional é algo diferente. O treino de Natalie Portman dá uma ideia do grau de exigência que pode existir quando o movimento passa a ser uma profissão. Mas para quem dança por prazer, a experiência pode ser muito mais simples: uma música, uma sala, alguns minutos.

Pode ser uma música antiga que nos apetece voltar a ouvir, a partilha de uma pista de dança com um grupo de amigos ou uma aula de dança depois do trabalho. Pode até ser aquela canção que começa quando estamos a arrumar a cozinha e que, por alguma razão, altera o nosso estado de espírito e nos põe a mexer.

Nietzsche escreveu que devíamos considerar perdido o dia em que não dançámos pelo menos uma vez. A frase é excessiva, como tantas frases de Nietzsche. Mas contém uma intuição verdadeira, a de que há dias em que fazer alguma coisa pelo nosso bem-estar pode ser tão simples quanto sentir o nosso corpo a movimentar-se exclusivamente por prazer.

Talvez seja isso que acontece quando começamos a dançar, voltamos a estar conectados com o nosso corpo e a viver o momento presente.


Imagem: Edgar Degas, Dançarinas Ucranianas


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