Porque está o disco de vinil no centro de uma tendência que procura reduzir a presença digital na vida moderna? Neste artigo investigamos os diferentes motivos.
O poder do envolvimento
Há qualquer coisa de satisfatório em usufruir de algo que nos exigiu esforço, mesmo que esse esforço seja tão simples quanto levantarmo-nos do sítio onde estamos sentados, caminhar até ao gira-discos e mudar o lado ao disco de vinil que estamos a ouvir. Estes gestos simples fazem com que nos sintamos envolvidos com a atividade que estamos a fazer – ouvir música – e com o mundo que nos rodeia, ou seja, dão um propósito a uma das máquinas mais maravilhosas que as novas tecnologias têm remetido para segundo plano: o nosso corpo.
Com todas as vantagens e comodidades que a tecnologia digital nos tem trazido, há um efeito colateral no ser humano que tem sido largamente reconhecido. Trata-se da passividade para a qual cada vez mais somos empurrados como consequência de termos “o mundo” na palma das mãos. Este sedentarismo, como tem sido demonstrado, tem consequências não só para a nossa saúde física mas também para a saúde mental, dimensões que, de resto, são interdependentes. Por isso, o envolvimento do nosso corpo com as coisas em que gastamos o tempo tem um valor por vezes subvalorizado, não só pela atividade motora que proporciona, como por outro fator determinante: vem acompanhado de um propósito.
Numa época em que cresce a consciencialização sobre a necessidade de voltar a um estilo de vida mais analógico, uma atividade tão central à experiência humana como ouvir música faz com que o formato do disco de vinil esteja a ter um enorme ressurgimento.
Reduzir a presença digital
O fenómeno não é recente e parece estar precisamente relacionado com a perceção de que a constante presença digital causa uma fadiga que só o envolvimento sensorial com o que nos rodeia permite combater. Tudo indica que o interesse pelo vinil tem crescido na inversa proporção da digitalização da sociedade e que isto se vem verificando desde há algumas gerações. A geração Z, por exemplo, é das que mais tem contribuído para que o disco de vinil volte a ter um lugar de destaque no estilo de vida atual, liderando atualmente o ranking das compras de vinil.
As motivações não se restringem apenas à parte motora do envolvimento com o objeto, ou seja, não se trata unicamente da ação de retirar o disco da capa, operar o gira-discos e levantar do sofá para mudar o disco de lado. O lado gráfico das discos de vinil – as suas capas – é também um estímulo visual aliciante, permitindo aliar à descoberta sonora uma descoberta artística que tem efeitos benéficos no nosso bem-estar através da libertação da dopamina, um neurotransmissor que, como hoje sabemos, não responde apenas ao prazer, mas ao prazer que vem acompanhado de um significado. E, ao contrário das imagens nos ecrãs, em que passamos a maior parte do nosso tempo, as que se encontram impressas no cartão das capas dos discos são manipuláveis: podemos senti-las – e algumas têm mesmo texturas diferenciadas -, incliná-las para permitir vê-las a outra luz, cheirá-las, ler as suas informações ou manifestos, enfim, apreciá-las enquanto objeto e celebrar o papel que desempenham na construção da nossa identidade.
E o fator social
Há ainda a componente do convívio que o vinil proporciona. Toda a parte mecânica e logística implicada, assim como a possibilidade de partilha de discos – não se pode emprestar um disco por mensagem – oferecem maravilhosos pretextos para a socialização. O que é melhor: estar ao lado de alguém a falar de um álbum de que gostamos e mostrar a sua capa enquanto ele roda no gira-discos; ou fazê-lo segurando um telemóvel?
A música na nossa vida pode ser uma experiência mais compensadora. Pode ter uma presença que interage mais com o ambiente em que estamos, que nos envolve e que enriquece a nossa vivência com memórias associadas a pessoas, lugares e momentos e, até prova em contrário, o disco de vinil é o objeto perfeito para desempenhar esse papel.
